São quase 10 horas da manhã. Ontem eu trouxe o computador para casa para trabalhar aqui. Hoje de manhãzinha deveria estar em casa para receber o sofá.
Eu ainda não tomei café... e embora eu perceba que estou com um pouco de fome, a vontade de escrever é maior.
Um pouco antes de sair para o trabalho, o M. me mostrou um CD lindo, de um grupo de música que ele foi assistir ontem. Ontem a noite ele só tinha dito que ia sair com "um amigo da internet"(como ele mesmo definiu). Hoje de manhã eu perguntei com quem, com uma ponta de vergonha... mas a minha curiosidade foi maior do que eu. Pior do que não perguntar para fingir que eu não tenho curiosidade, prefiro admitir que sou curiosa mesmo e perguntar. Ele disse que era o C.
De vez em quando eu leio o que o M. escreve na internet, como exercício da Schule für Selbsterkenntnis und Exzellenz. Leio também o que as pessoas da "escola do GLR" escrevem na internet. Já tinha lido algumas coisas dele, certamente, mas sem me prender no nome.
Assim que o M. saiu me deu uma vontade incontrolada de ligar o computador e ver "quem" era exatamente o tal C. Entrei no blog dele e passei 40 minutos lendo. Acho que fiz isso para acalmar a minha curiosidade e afastar uma pontinha de "medo"... que foi exatamente o mesmo medo que eu senti em novembro do ano passado, quando numa conversa com o M. ele me perguntou se eu "achei na internet" o blog dele. Eu não tinha procurado até o momento, mas essa pergunta me perfurou como um raio... e depois, de fato, fui procurar aquilo que eu não conhecia, que era estrangeiro, misterioso... lembro que depois de ter encontrado e lido, eu cheguei em casa com uma culpa no coração de ter ido bisbilhotar no que não era da minha conta. Esta sensação toda eu descrevi no meu diário... ao contar para o M. o que aconteceu, ele me olhou com tranquilidade e disse, "mas porque você está agindo desta forma? Não tem problema nenhum... está na internet, não interessa para ninguém". Bom, para mim interessou... aí eu percebi que na verdade, a culpa era misturada com uma grande vergonha, de eu estar bisbilhotando nas "coisas dos outros" ao invés de estar cuidando das minhas coisas.
Bom, mas isso é passado... voltando ao hoje. Fui procurar o que o C. escrevia... enquanto estava lendo, a campainha tocou. Era o pessoal do sofá. Minha vontade era continuar lendo, mas eu tinha que atender a porta. Assim que o pessoal do sofá conseguiu vencer os dois andares de escadas e saíram, voltei para o computador.
Porquê? Porque de repente se tornou mais importante que o café da manhã e que o sofá novo, ler na internet o que esse cara escreve... Porque por um lado me assusta um pouco a idéia do M. sair com um "amigo da internet" do qual ele nem nunca falou comigo. Por outro, tenho a mínima impressão de que eu posso aprender algo com isso. Bom. Li, li e li... li mais de uma hora no total. E agora só queria escrever aqui as minhas impressões...
1) Acho válido e importante esse pessoal da escola escrever o que eles sentem, o que eles pensam e, com isso, tentar se perceber, se auto-conhecer. O meu intuito com o diário é exatamente o mesmo. Claro que eu respeito as pessoas que estão tentando perceber quem são.
2) Por outro lado, tenho a clara e fria sensação de que todos eles escrevem as mesmas coisas... com pequenas variações. E aí me pergunto se pode mesmo ser tão sincero o que escrevem... se eles não estão se lendo e em certa medida se imitando.
Com relação ao primeiro ponto, eu sinto que de certa forma eu me identifico. Tenho uma certa simpatia e respeito por essas pessoas que eu não conheço e que não fazem a mínima idéia de quem eu sou (a não ser pelas coisas que o M. escreve referindo-se a mim como D.). Gosto de ver que as pessoas procuram escrever ali o que elas são... elas procurar registrar o que acontece com elas.
Com relação ao segundo ponto, me sinto superior... me sinto mais "livre" de poder fazer o meu caminho sem ter que imitar ninguém. Embora isso só mostre que na verdade não sou livre, a ponto de ter que pensar assim para ter uma pontinha de alívio.
Bom, o que me chamou atenção no tal C. foram duas coisas:
1) Ele é um cara casado e com filhos... que no entanto, acha que seria mais feliz se pudesse estar em outra situação, diferente dessa. Ele sente-se cheio de obrigações. Acorrentado. O peso da família... o peso das crianças, o peso da mulher, que aparentemente, sofre de depressão. Sinto pena... dá um aperto na barriga se eu me coloco no lugar dele. Mas no momento seguinte eu percebo que eu não tenho nada a ver com isso. Sinto o peso dele, mas não a ponto de ficar deprimida. É como se eu registrasse, mas não me identificasse.
2) É um cara que, embora casado e com filhos, não fechou as portas para ter relações com outras mulheres. Ele escreve, até que freqüentemente, sobre as outras mulheres. Escreve sim, muito sobre a esposa (sobre incontáveis brigas, sobre como ela para ele às vezes é um peso, sobre alguns momentos de afeto). Mas escreve sobre casos que ele tem fora do casamento. Nesse ponto é interessante como eu me sinto quase atacada de ler o que esse estranho escreve. Me sinto mais atacada do que se a M. me contasse hoje no telefone que ela está paquerando um cara da aula de alemão dela, e que, a noite, ao chegar em casa e colocar a janta para o Renato e sentar-se na mesa com ele, ela pensaria nisso rapidamente e se sentiria culpada.
Por outro lado, sinto que eu também tenho "propensões" de ter relações múltiplas. Agora, que estou na Alemanha, morando com o M. há 5 meses, ainda não aflorou esse meu lado. Mas antes de sair do Brasil, tive relacionamentos com mais de uma pessoa. E falava horas com o M. no telefone como se nada tivesse acontecido.
Bom, são coisas para observar. Será que tenho medo de ler o que o C. escreve sobre as mulheres porque isto porque isso me é familiar? Vou continuar reparando.
sexta-feira, 30 de março de 2007
quinta-feira, 29 de março de 2007
E o computador ganhou?
Desde que cheguei na Alemanha estou escrevendo mais freqüentemente no meu diário. Eu redescobri essa coisa maravilhosa que é escrever... colocar no papel os pensamentos, os sentimentos, as idéias... descarregar emoções, observar, desenhar, anotar coisas interessantes e outras nem tanto. Conhecer, descobrir. Descobrir a mim mesma. É. É por isto. O diário é para mim é a oportunidade de um auto-estudo...
Quase mais legal do que escrever é ler o que foi escrito... principalmente depois de uns meses. Os sentimentos mudam tanto, os pensamentos, as "verdades". Tudo transitório, tudo em movimento. Não temos nada e nem ninguém... só temos a vida, que só acontece nesse instante. O resto é só uma imagem distorcida que a gente tem do tempo... o passado e o futuro, não existem. Mas como insistem em "existir". Por causa deles, não conseguimos viver o presente.
O que será que eu vou sentir ao ler o que escrevi hoje, daqui a anos? Será que darei alguma importância? Será que vou sentir vergonha? Será que vou sentir uma certa pena misturada com simpatia por ter sido tão tola e ingênua?
Só sei que parece que aqui o computador ganhou. Eu relutava em escrever na internet... mas acabei cedendo. Não porque eu tenha a mínima pretensão de dar isso para alguém ler um dia... (esse me parece o motivo das pessoas escreverem na internet coisas "pessoais". É para receber reações das outras pessoas. É para os outros verem como alguém é sensível, inteligente, deprimido, misterioso, iluminado). Escrevo aqui porque a velocidade com a qual os pensamentos me vêm à cabeça é praticamente a mesma com que eu escrevo com o teclado. Que horror... por uma questão de "praticidade". Escrever no Word daria na mesma, mas essa tal de internet facilita muito a vida... posso escrever de qualquer lugar do mundo. E posso acessar esse "blog" de qualquer lugar.
Aqui o objetivo não é interação. Não me interessam aqui as interferências externas. A idéia aqui é da mais pura auto-observação. Auto-registro.
Aqui eu não tenho a caneta na mão para fazer meus desenhos, rabiscos, croquis... o meu caderno é muito mais vivo, mais "artístico". Mas eu não pretendo "encostar" o caderno não. Tô fazendo um teste.
Vou escrevendo lá e vou escrevendo aqui.
Quase mais legal do que escrever é ler o que foi escrito... principalmente depois de uns meses. Os sentimentos mudam tanto, os pensamentos, as "verdades". Tudo transitório, tudo em movimento. Não temos nada e nem ninguém... só temos a vida, que só acontece nesse instante. O resto é só uma imagem distorcida que a gente tem do tempo... o passado e o futuro, não existem. Mas como insistem em "existir". Por causa deles, não conseguimos viver o presente.
O que será que eu vou sentir ao ler o que escrevi hoje, daqui a anos? Será que darei alguma importância? Será que vou sentir vergonha? Será que vou sentir uma certa pena misturada com simpatia por ter sido tão tola e ingênua?
Só sei que parece que aqui o computador ganhou. Eu relutava em escrever na internet... mas acabei cedendo. Não porque eu tenha a mínima pretensão de dar isso para alguém ler um dia... (esse me parece o motivo das pessoas escreverem na internet coisas "pessoais". É para receber reações das outras pessoas. É para os outros verem como alguém é sensível, inteligente, deprimido, misterioso, iluminado). Escrevo aqui porque a velocidade com a qual os pensamentos me vêm à cabeça é praticamente a mesma com que eu escrevo com o teclado. Que horror... por uma questão de "praticidade". Escrever no Word daria na mesma, mas essa tal de internet facilita muito a vida... posso escrever de qualquer lugar do mundo. E posso acessar esse "blog" de qualquer lugar.
Aqui o objetivo não é interação. Não me interessam aqui as interferências externas. A idéia aqui é da mais pura auto-observação. Auto-registro.
Aqui eu não tenho a caneta na mão para fazer meus desenhos, rabiscos, croquis... o meu caderno é muito mais vivo, mais "artístico". Mas eu não pretendo "encostar" o caderno não. Tô fazendo um teste.
Vou escrevendo lá e vou escrevendo aqui.
Assinar:
Postagens (Atom)