É claro que para mim a necessidade de ser livre é um tema tão relevante apenas porque sou prisiononeira. E é claro que quanto mais eu foco na vontade de ser livre, mais eu fico presa num beco sem saída.
A questão do materialismo espiritual ecoa na minha cabeça... a "liberdade" não pode ser um produto a ser consumido. Assim não é.
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
Antes da decisão final: me sinto como um elástico
É incrível como eu pareço um elástico que fica pendendo para o sim e para o não o tempo todo. Eu já decidi que ia sair do apartamento e já desdecidi isso pelo menos um milhão de vezes hoje.
É óbvio que se as coisas aqui estivessem mal, era muito mais fácil eu decidir ir embora. Estando tudo bem, parece uma mentira forçada eu sair. Mas não é... se eu deixo o coração em paz, é isso que ele me diz.
Como eu poderia continuar morando aqui sabendo que para o M. às vezes essa idéia torna-se uma prisão... e sabendo que para mim, tudo isso se torna igualmente uma prisão, quando eu me identifico com o "papel da namorada".
Sair do apartamento me dói o coração por vários motivos, e eu tenho consciência de que todos eles estão ligados a medos, condicionamentos e preconceitos.
Eu não vou deixar de amá-lo, eu não vou deixar de ter contato com ele todas as vezes que eu quiser. Ainda assim, a sensação de perda está viva e incomodando.
Eu não quero ir porque eu tenho a impressão que eu fracassei... depois de 4 anos de namoro à distância nós temos finalmente um apartamento maravilhoso e dividimos a mesma cama. Tudo flui maravilhosamente. Só que em alguns momentos, que representam de fato só 10% do tempo, não conseguimos viver com o coração em paz nessas condições. Eu me sinto "dona" e ele se sente "prisioneiro". E quando começamos a interpretar papéis, tudo fica tão ruim... é um assassinato ao amor que eu sinto, e nesses momentos eu me pergunto o que eu fiz com o sentimento nobre que eu sinto.
Está muito presente o medo de assumir uma vida pela qual a única responsável sou eu. Mas não tem outro jeito. Essa é uma decisão que, cedo ou tarde, todo mundo precisa tomar.
É óbvio que se as coisas aqui estivessem mal, era muito mais fácil eu decidir ir embora. Estando tudo bem, parece uma mentira forçada eu sair. Mas não é... se eu deixo o coração em paz, é isso que ele me diz.
Como eu poderia continuar morando aqui sabendo que para o M. às vezes essa idéia torna-se uma prisão... e sabendo que para mim, tudo isso se torna igualmente uma prisão, quando eu me identifico com o "papel da namorada".
Sair do apartamento me dói o coração por vários motivos, e eu tenho consciência de que todos eles estão ligados a medos, condicionamentos e preconceitos.
Eu não vou deixar de amá-lo, eu não vou deixar de ter contato com ele todas as vezes que eu quiser. Ainda assim, a sensação de perda está viva e incomodando.
Eu não quero ir porque eu tenho a impressão que eu fracassei... depois de 4 anos de namoro à distância nós temos finalmente um apartamento maravilhoso e dividimos a mesma cama. Tudo flui maravilhosamente. Só que em alguns momentos, que representam de fato só 10% do tempo, não conseguimos viver com o coração em paz nessas condições. Eu me sinto "dona" e ele se sente "prisioneiro". E quando começamos a interpretar papéis, tudo fica tão ruim... é um assassinato ao amor que eu sinto, e nesses momentos eu me pergunto o que eu fiz com o sentimento nobre que eu sinto.
Está muito presente o medo de assumir uma vida pela qual a única responsável sou eu. Mas não tem outro jeito. Essa é uma decisão que, cedo ou tarde, todo mundo precisa tomar.
Quebrando a casca do ovo
Esses dias que passaram foram de intensa atividade emocional, mental, espiritual, sentimental, etc. Depois de tanto pensar, qual é a minha decisão final: sair ou não sair? Mudar ou não mudar? Procurar um outro apê para morar ou continuar morando aqui?
Eu pesei, analisei, refleti sobre essa decisão até o momento, mas sempre do ponto de vista da "namorada do Marco"... até o momento eu estava focando o ponto errado da questão e é por isso que a confusão estava tão grande. O meu ego fica com uma certa vergonha admitir, mas isso mostra o quanto eu estou "atachada emocionalmente" ao Marco, e à idéia do casal feliz. É esse o veneno que mantém as pessoas mortas dentro dos relacionamentos por anos a fio.
É só agora que eu estou voltando a acessar o impulso e a espontaneidade que me assaltaram quando eu senti que seria bom procurar outro lugar para morar. Quando eu pensei nisso, não foi em "nós" que eu pensei. Não se trata de um investimento no "nosso futuro"... é muito mais uma questão de eu me sentir mais livre fazendo assim do que fazendo qualquer outra coisa.
Claro que essa opção também libertaria o Marco da idéia do relacionamento - que para ele é tão incômoda. Mas agora eu quero focar em outro ponto: o que eu sinto? Qual é a situação da Daniela no meio disso tudo?
No começo eu tinha medo dessa "liberdade" (e agora, quando eu penso em levar as coisas até o final, o medo, a insegurança e a incerteza voltam), mas cada vez mais eu vejo que esse medo é nada mais nada menos do que uma resistência à mudança. O medo é o muro, que vale a pena escalar... eu não tenho nada perder... porque a resistência?
Quando eu me vejo no quarto novo, com a minha mesa, minha cama, meus livros, minha janela, isso não dói, pelo contrário, eu sinto uma certa paz no coração. Então eu posso ver que o medo é na verdade uma coisa produzida pelo meu condicionamenteo, porque de alguma idéia, conceito, ou medo, eu não quero desistir.
Porque eu haveria de ter medo de "be by myself"? Eu não posso fugir de mim, eu sou apenas aquilo que sou. Não preciso ter medo, não preciso ter orgulho, não preciso me sentir bem ou mal... preciso apenas aceitar, deixar ser.
Eu pesei, analisei, refleti sobre essa decisão até o momento, mas sempre do ponto de vista da "namorada do Marco"... até o momento eu estava focando o ponto errado da questão e é por isso que a confusão estava tão grande. O meu ego fica com uma certa vergonha admitir, mas isso mostra o quanto eu estou "atachada emocionalmente" ao Marco, e à idéia do casal feliz. É esse o veneno que mantém as pessoas mortas dentro dos relacionamentos por anos a fio.
É só agora que eu estou voltando a acessar o impulso e a espontaneidade que me assaltaram quando eu senti que seria bom procurar outro lugar para morar. Quando eu pensei nisso, não foi em "nós" que eu pensei. Não se trata de um investimento no "nosso futuro"... é muito mais uma questão de eu me sentir mais livre fazendo assim do que fazendo qualquer outra coisa.
Claro que essa opção também libertaria o Marco da idéia do relacionamento - que para ele é tão incômoda. Mas agora eu quero focar em outro ponto: o que eu sinto? Qual é a situação da Daniela no meio disso tudo?
No começo eu tinha medo dessa "liberdade" (e agora, quando eu penso em levar as coisas até o final, o medo, a insegurança e a incerteza voltam), mas cada vez mais eu vejo que esse medo é nada mais nada menos do que uma resistência à mudança. O medo é o muro, que vale a pena escalar... eu não tenho nada perder... porque a resistência?
Quando eu me vejo no quarto novo, com a minha mesa, minha cama, meus livros, minha janela, isso não dói, pelo contrário, eu sinto uma certa paz no coração. Então eu posso ver que o medo é na verdade uma coisa produzida pelo meu condicionamenteo, porque de alguma idéia, conceito, ou medo, eu não quero desistir.
Porque eu haveria de ter medo de "be by myself"? Eu não posso fugir de mim, eu sou apenas aquilo que sou. Não preciso ter medo, não preciso ter orgulho, não preciso me sentir bem ou mal... preciso apenas aceitar, deixar ser.
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
Tocando violino e correndo de manhã
Estou tocando violino com mais freqüência. É muito bom voltar para esse instrumento tão bonito e ficar horas mergulhada no Vivaldi, no Schubert, no Dvórak, nas escalas... estou feliz de estar ensaiando peças com o Armin, que é um físico que faz parte do coral da universidade e toca piano (e órgão) lindamente.
Também estou correndo de manhã, há duas semanas. É interessante ver as mudanças que acontecem no corpo quando ele é colocado em movimento depois de tanto tempo. Meu corpo é bonito, é forte. Minha saúde é um presente. Eu quero cuidar de mim mesma com mais amor e atenção a partir de agora. Até o tempo de fazer massagens nos meus pés eu tomo para mim.
"O amor por si mesmo não funciona só no pensamento."
"Porque eu seria mais amorosa com os outros do que comigo mesma?"
Frases que estão rodando na minha cabeça.
Também estou correndo de manhã, há duas semanas. É interessante ver as mudanças que acontecem no corpo quando ele é colocado em movimento depois de tanto tempo. Meu corpo é bonito, é forte. Minha saúde é um presente. Eu quero cuidar de mim mesma com mais amor e atenção a partir de agora. Até o tempo de fazer massagens nos meus pés eu tomo para mim.
"O amor por si mesmo não funciona só no pensamento."
"Porque eu seria mais amorosa com os outros do que comigo mesma?"
Frases que estão rodando na minha cabeça.
Perdendo o medo
Recebi a visita da Mel esses dias. Foi muito bom poder encontrá-la depois de tanto tempo. É tão bom poder contar com uma amizade como a nossa... a gente se dá muito bem, sem fazer força nenhuma. É sempre bom poder conversar com ela... tanto eu quanto ela nos sentimos à vontade para falarmos abertamente sobre tudo. Esse nível de intimidade que atingimos é algo precioso.
Na sexta a noite, quando o M. chegou do trabalho, fomos todos para a cozinha jantar. A Mel tinha feito um peixe maravilhoso no dia anterior e estávamos todos animados com os dotes culinários dela. Comemos, conversamos, demos risada, foi gostoso. De repente, em algum momento da conversa, sem motivo aparente nenhum, o M. fez comentários agressivos se referindo a mim. No começo achei que eu tinha entendido mal, mas ele tornou a ser agressivo, deixando muito claro o ataque. Nesse momento fiquei com muita raiva, porque não havia motivo nenhum para tal comportamento. Primeiro porque ele nunca tinha falado comigo daquela maneira e depois porque o ataque era mesmo infundado. Foi estranho e inédito.
Senti uma fisgada no estômago, mas naquele momento fiquei tão atônita que não consegui me defender. Quando o jantar acabou, o plano era assistir a um filme. Quando a M. estava no banheiro, eu e o M. estávamos na sala e então eu disse para ele:
- Tô morrendo de raiva de você. Porque você está tão agressivo?
- Du, es tut mir leid, ich habe nicht schlecht gemeint, ich habe nur ein Scheiss geredet. (Ele disse isso com um certo tom de escárnio, o que me deixou ainda mais puta).
- Pass auf, ich habe absolut nichts mit deine Scheisse zu tun, M.
Nesse momento ele se ligou que de fato tinha sido agressivo sem motivo nenhum (o motivo deve existir, mas aparentemente não tem nada a ver comigo). Ele ficou com vergonha e levantou do sofá, desistindo de ver o filme.
Eu e a M. assistimos o filme e eu só fiquei tentando me lembrar qual era o motivo de eu estar junto com uma pessoa assim. Fiquei mesmo com raiva e achei inaceitável o que aconteceu. Comecei a lembrar de várias situações nos últimos meses em que ele me tratou de uma forma agressiva e sem amor. Acho que não tinha notado tão claramente até o momento porque essa agressividade é extremamente velada... ela está nas entrelinhas, nunca é algo direto, de modo que eu nem posso me defender. Pior: não posso me revoltar. Eu me sinto culpada de ter raiva do M., mesmo quando ele tem uma atitude destas. É como se mesmo que ele faça algo absurdo, eu sempre assumo a culpa por ele. Eu tenho vergonha de ser justa e de tomar uma posição mais dura.
Ao conversar com a M. sobre isso e me lembrar de vários eventos, eu percebi que não fazia mais sentido a gente continuar junto. Minha raiva nesse dia foi genuína e saudável, e me deu forças para não cair no hábito do sentimento de culpa.
No dia seguinte, não queria olhá-lo nos olhos. Chorei duas horas seguidas pela manhã, me despedindo da idéia de que somos um casal. Depois relaxei. Todas as palavras que ele tentou trocar comigo durante o dia, eu ignorei - pois todas as palavras eram vazias e covardes, ignoravam o assunto. Até o momento em que estávamos de novo sozinhos e ele perguntou diretamente: "porque você ainda está tão brava comigo?" Aí eu disse, com uma certa calma que até me surpreendi.
"Ainda estou com raiva de você, mas está passando. Eu só queria dizer que eu não sou mais a sua namorada e que você não precisa mais me maltratar por isso. Eu vou sair do apartamento. Não faz sentido nenhum essa situação e eu não tenho que ficar aqui para agüentar. Eu te amo e se você fica me punindo por causa disso, então deve ter alguma coisa muito errada com você. Se você destrói tudo e não tem coragem de assumir as próprias coisas e fica projetando tudo em cima de mim, então você vai ficar sozinho e pensar um pouco na sua vida. Eu realmente não tenho porquê me colocar nessa situação constrangedora. Eu só vou ficar aqui até achar um outro apartamento."
Ele ficou num primeiro momento atônito e queria conversar. Eu disse que não tinha nada para falar e que as palavras nesse momento não tinham valor nenhum... importante é o que a gente FAZ. Ele começou a chorar e eu fiquei muito triste de vê-lo assim, mas não fiz nada para aliviar a dor dele. E disse com uma paz no coração: "É estranho M. Sempre tive medo desse momento. E agora que aconteceu, estou muito tranqüila e acho que é a coisa certa a fazer." Á noite, enquanto eu ouvia música clássica na sala, eu ouvia os soluços dele na cozinha. A dor no coração de vê-lo sofrendo era grande e eu fiquei me perguntando se não tinha sido dura demais. Respirei fundo e percebi que ele precisava passar por isso e que se eu fosse lá acalmá-lo, então eu invalidaria o que tinha sido dito anteriormente. Quando subi para o quarto, ele veio e, com os olhos cheios de lágrimas disse que precisava conversar. Eu senti pena de vê-lo sofrendo daquele jeito e disse: "M., porque você sempre quer sofrer? Calma, está tudo bem." E, muito triste, ele disse que não sabia como pôde destruir tudo... e que agora merecia ficar com o apartamento vazio e sem vida. Ele disse que não entendia mais nada e que não sabia porque estava agindo daquela forma. E que ele tinha arruinado tudo e me perdido. Ele disse que não tinha amor próprio e que por isso ele estava me maltratando. Como ele poderia me amar se não conseguia amar a si mesmo. Eu perguntei: "Então é porque eu te amo que vc me maltrata? Você acha que você não pode merecer esse amor?" E ele ficou dizendo o quanto ele se sabotava... e que conseqüentemente acabava me sabotando também.
Foi um dramalhão... interessante perceber que eu não me identifiquei com o drama. Eu disse com muita calma: "M., o mundo não acabou. Vai ser melhor assim para nós dois. Você precisa de espaço, então você vai ter mas espaço. Do jeito que está não está legal." E eu fiz carinho nele e dormimos.
No dia seguinte estava tudo bem. No café da manhã foi tudo tranqüilo e à tarde saímos para passear. Durante o passeio ele procurou segurar na minha mão e me olhava sempre com uma ternura diferente. No jantar ele perguntou se eu ia mesmo sair do apartamento. Eu disse que sim. E reiniciamos uma conversa sobre tudo o que estava acontecendo. Dessa conversa, alguns pontos:
- das outras vezes em que eu cogitei sair do apartamento (já tinha cogitado duas vezes nos últimos meses), foi porque eu estava insegura perante a possibilidade de ele sair com outras meninas. Senti ciúmes quando vi, pela primeira vez, que existia a possibilidade real de isso acontecer. Eu procurei então enfrentar essa emoção negativa, procurando dentro de mim os motivos para tal sentimento nascer. Até então eu não sabia exatamente o que era o ciúme. Então fiquei meio desajeitada de lidar com ele. No fim, decidi que eu não precisava ir embora por causa disso, porque eu gostava dele e ele gostava de mim, e isso não tem nada a ver com a curiosidade de um ou de outro de ter sexo ou uma aventura com outra pessoa.
- dessa vez eu estou querendo sair do apartamento por um outro motivo. E esse motivo não é algo que está sob meu controle, como o ciúmes. O motivo é: ele me bloqueia, ele se fecha, ele até me maltrata, dentro da minha própria casa. Isso eu não aceito.
- a minha decisão é: se ele quer sair com outras meninas, mas está comigo por livre e espontânea vontade e as coisas fluem naturalmente, eu fico. Se ele quer sair com outras meninas, mas para conseguir fazer isso ele precisa ter raiva de mim e me maltratar, eu vou.
- qual é a decisão dele?
Ele tentou fugir da idéia de tomar uma decisão. No entanto, eu disse que ele tinha que decidir, pois eu não posso me entregar para uma pessoa que não sabe se me quer.
Ele ficou de tomar uma decisão nos próximos dias.
Minhas observações:
- eu não tenho mais medo de sair daqui e de começar uma nova etapa morando em outro lugar.
- eu não deixo de amar o M. por causa de tudo isso que estamos passando. Pelo contrário, eu o amo ainda mais. E nesse processo, eu também aprendi a me amar mais.
- eu acho que pode ser um grande aprendizado para mim sair daqui e tomar as rédeas da minha própria vida. É uma oportunidade para aprender um monte de coisas novas.
- eu acho que pode ser um grande aprendizado para ele assumir que talvez a vida dele seja mais fácil se ele estiver morando sozinho, pois por ele ser tão travado, nesse momento ele não pode aceitar a idéia de me ter por perto sem me acusar de o estar limitando de alguma maneira (mesmo que eu não esteja).
- eu preciso de paz nesse departamento da minha vida para eu poder continuar o meu doutorado. O sentimento de culpa de que no último mês o meu doutorado andou bagunçado é algo que está me incomodando. Só que eu não consigo me concentrar no doutorado se essa situação permanece assim mal-resolvida.
Quero viver minha própria vida. E para isso, não tem desculpa, não dependo da presença e nem da ausência de ninguém.
Na sexta a noite, quando o M. chegou do trabalho, fomos todos para a cozinha jantar. A Mel tinha feito um peixe maravilhoso no dia anterior e estávamos todos animados com os dotes culinários dela. Comemos, conversamos, demos risada, foi gostoso. De repente, em algum momento da conversa, sem motivo aparente nenhum, o M. fez comentários agressivos se referindo a mim. No começo achei que eu tinha entendido mal, mas ele tornou a ser agressivo, deixando muito claro o ataque. Nesse momento fiquei com muita raiva, porque não havia motivo nenhum para tal comportamento. Primeiro porque ele nunca tinha falado comigo daquela maneira e depois porque o ataque era mesmo infundado. Foi estranho e inédito.
Senti uma fisgada no estômago, mas naquele momento fiquei tão atônita que não consegui me defender. Quando o jantar acabou, o plano era assistir a um filme. Quando a M. estava no banheiro, eu e o M. estávamos na sala e então eu disse para ele:
- Tô morrendo de raiva de você. Porque você está tão agressivo?
- Du, es tut mir leid, ich habe nicht schlecht gemeint, ich habe nur ein Scheiss geredet. (Ele disse isso com um certo tom de escárnio, o que me deixou ainda mais puta).
- Pass auf, ich habe absolut nichts mit deine Scheisse zu tun, M.
Nesse momento ele se ligou que de fato tinha sido agressivo sem motivo nenhum (o motivo deve existir, mas aparentemente não tem nada a ver comigo). Ele ficou com vergonha e levantou do sofá, desistindo de ver o filme.
Eu e a M. assistimos o filme e eu só fiquei tentando me lembrar qual era o motivo de eu estar junto com uma pessoa assim. Fiquei mesmo com raiva e achei inaceitável o que aconteceu. Comecei a lembrar de várias situações nos últimos meses em que ele me tratou de uma forma agressiva e sem amor. Acho que não tinha notado tão claramente até o momento porque essa agressividade é extremamente velada... ela está nas entrelinhas, nunca é algo direto, de modo que eu nem posso me defender. Pior: não posso me revoltar. Eu me sinto culpada de ter raiva do M., mesmo quando ele tem uma atitude destas. É como se mesmo que ele faça algo absurdo, eu sempre assumo a culpa por ele. Eu tenho vergonha de ser justa e de tomar uma posição mais dura.
Ao conversar com a M. sobre isso e me lembrar de vários eventos, eu percebi que não fazia mais sentido a gente continuar junto. Minha raiva nesse dia foi genuína e saudável, e me deu forças para não cair no hábito do sentimento de culpa.
No dia seguinte, não queria olhá-lo nos olhos. Chorei duas horas seguidas pela manhã, me despedindo da idéia de que somos um casal. Depois relaxei. Todas as palavras que ele tentou trocar comigo durante o dia, eu ignorei - pois todas as palavras eram vazias e covardes, ignoravam o assunto. Até o momento em que estávamos de novo sozinhos e ele perguntou diretamente: "porque você ainda está tão brava comigo?" Aí eu disse, com uma certa calma que até me surpreendi.
"Ainda estou com raiva de você, mas está passando. Eu só queria dizer que eu não sou mais a sua namorada e que você não precisa mais me maltratar por isso. Eu vou sair do apartamento. Não faz sentido nenhum essa situação e eu não tenho que ficar aqui para agüentar. Eu te amo e se você fica me punindo por causa disso, então deve ter alguma coisa muito errada com você. Se você destrói tudo e não tem coragem de assumir as próprias coisas e fica projetando tudo em cima de mim, então você vai ficar sozinho e pensar um pouco na sua vida. Eu realmente não tenho porquê me colocar nessa situação constrangedora. Eu só vou ficar aqui até achar um outro apartamento."
Ele ficou num primeiro momento atônito e queria conversar. Eu disse que não tinha nada para falar e que as palavras nesse momento não tinham valor nenhum... importante é o que a gente FAZ. Ele começou a chorar e eu fiquei muito triste de vê-lo assim, mas não fiz nada para aliviar a dor dele. E disse com uma paz no coração: "É estranho M. Sempre tive medo desse momento. E agora que aconteceu, estou muito tranqüila e acho que é a coisa certa a fazer." Á noite, enquanto eu ouvia música clássica na sala, eu ouvia os soluços dele na cozinha. A dor no coração de vê-lo sofrendo era grande e eu fiquei me perguntando se não tinha sido dura demais. Respirei fundo e percebi que ele precisava passar por isso e que se eu fosse lá acalmá-lo, então eu invalidaria o que tinha sido dito anteriormente. Quando subi para o quarto, ele veio e, com os olhos cheios de lágrimas disse que precisava conversar. Eu senti pena de vê-lo sofrendo daquele jeito e disse: "M., porque você sempre quer sofrer? Calma, está tudo bem." E, muito triste, ele disse que não sabia como pôde destruir tudo... e que agora merecia ficar com o apartamento vazio e sem vida. Ele disse que não entendia mais nada e que não sabia porque estava agindo daquela forma. E que ele tinha arruinado tudo e me perdido. Ele disse que não tinha amor próprio e que por isso ele estava me maltratando. Como ele poderia me amar se não conseguia amar a si mesmo. Eu perguntei: "Então é porque eu te amo que vc me maltrata? Você acha que você não pode merecer esse amor?" E ele ficou dizendo o quanto ele se sabotava... e que conseqüentemente acabava me sabotando também.
Foi um dramalhão... interessante perceber que eu não me identifiquei com o drama. Eu disse com muita calma: "M., o mundo não acabou. Vai ser melhor assim para nós dois. Você precisa de espaço, então você vai ter mas espaço. Do jeito que está não está legal." E eu fiz carinho nele e dormimos.
No dia seguinte estava tudo bem. No café da manhã foi tudo tranqüilo e à tarde saímos para passear. Durante o passeio ele procurou segurar na minha mão e me olhava sempre com uma ternura diferente. No jantar ele perguntou se eu ia mesmo sair do apartamento. Eu disse que sim. E reiniciamos uma conversa sobre tudo o que estava acontecendo. Dessa conversa, alguns pontos:
- das outras vezes em que eu cogitei sair do apartamento (já tinha cogitado duas vezes nos últimos meses), foi porque eu estava insegura perante a possibilidade de ele sair com outras meninas. Senti ciúmes quando vi, pela primeira vez, que existia a possibilidade real de isso acontecer. Eu procurei então enfrentar essa emoção negativa, procurando dentro de mim os motivos para tal sentimento nascer. Até então eu não sabia exatamente o que era o ciúme. Então fiquei meio desajeitada de lidar com ele. No fim, decidi que eu não precisava ir embora por causa disso, porque eu gostava dele e ele gostava de mim, e isso não tem nada a ver com a curiosidade de um ou de outro de ter sexo ou uma aventura com outra pessoa.
- dessa vez eu estou querendo sair do apartamento por um outro motivo. E esse motivo não é algo que está sob meu controle, como o ciúmes. O motivo é: ele me bloqueia, ele se fecha, ele até me maltrata, dentro da minha própria casa. Isso eu não aceito.
- a minha decisão é: se ele quer sair com outras meninas, mas está comigo por livre e espontânea vontade e as coisas fluem naturalmente, eu fico. Se ele quer sair com outras meninas, mas para conseguir fazer isso ele precisa ter raiva de mim e me maltratar, eu vou.
- qual é a decisão dele?
Ele tentou fugir da idéia de tomar uma decisão. No entanto, eu disse que ele tinha que decidir, pois eu não posso me entregar para uma pessoa que não sabe se me quer.
Ele ficou de tomar uma decisão nos próximos dias.
Minhas observações:
- eu não tenho mais medo de sair daqui e de começar uma nova etapa morando em outro lugar.
- eu não deixo de amar o M. por causa de tudo isso que estamos passando. Pelo contrário, eu o amo ainda mais. E nesse processo, eu também aprendi a me amar mais.
- eu acho que pode ser um grande aprendizado para mim sair daqui e tomar as rédeas da minha própria vida. É uma oportunidade para aprender um monte de coisas novas.
- eu acho que pode ser um grande aprendizado para ele assumir que talvez a vida dele seja mais fácil se ele estiver morando sozinho, pois por ele ser tão travado, nesse momento ele não pode aceitar a idéia de me ter por perto sem me acusar de o estar limitando de alguma maneira (mesmo que eu não esteja).
- eu preciso de paz nesse departamento da minha vida para eu poder continuar o meu doutorado. O sentimento de culpa de que no último mês o meu doutorado andou bagunçado é algo que está me incomodando. Só que eu não consigo me concentrar no doutorado se essa situação permanece assim mal-resolvida.
Quero viver minha própria vida. E para isso, não tem desculpa, não dependo da presença e nem da ausência de ninguém.
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