Estes quatro dias eu viajei para encontrar meus pais, que estão fazendo uma viagem pela E. e me convidaram para encontrá-los em B.
Foi a minha segunda vez na cidade, e eu continuo gostando da atmosfera que ela exala. Dessa vez eu vi e visitei coisas diferentes do que da última vez - e uma coisa que fez muita diferença foi a temperatura, pois agora é verão. Principalmente num país como a Al., as cidades são bastantes diferentes dependendo da estação do ano. O uso do espaço público, por exemplo, é praticamente inexistente no inverno. No verão, além de você poder aproveitar os parques, as praças e os passeios públicos que a cidade oferece, você vivencia uma certa sensação de liberdade por ter mais possibilidades. Você não precisa, por exemplo, entrar num táxi ou pegar um metrô porque está frio, chovendo ou escuro. Você pode fazer tudo a pé - se você se der o tempo de descobrir cada cantinho no seu próprio tempo, sem nenhuma pressa.
Fiquei hospedada na casa do F., que também está fazendo doutorado na Al. Meus pais ficaram num hotel perto da nossa rua. Nós tomávamos café da manhã e passávamos o dia todo juntos - só nos despedindo para ir dormir. O convívio foi intenso. E o curioso é que foi muito mais harmônico do que eu poderia esperar. Nestes dias eu pude perceber uma mudança sutil, porém muito fundamental na minha atitude em relação aos meus pais: na presença deles, eu não me sinto "a filha" deles, como se precisasse me encaixar num papel e seguir determinadas regras: eu me sinto como um ser humano. E isso resulta na anulação de uma ampla lista de tensões que eram típicas da minha atitude em relação aos meus pais.
Eu não tenho mais problemas com o fato de não pensarmos da mesma maneira. Não me incomoda mais não fazer o que eles julgam o melhor para mim - porque hoje eu sei que, não sendo eu, eles freqüentemente vão errar ao afirmar o que é o melhor para mim. Eu vejo claramente quando eles me fazem uma crítica como se só o ponto de vista deles fosse o válido e o correto - pois na cabeça deles, por serem mais velhos, eles necessariamente são mais experientes e sabem mais sobre a vida. E sei que, se eu reconheço esse condicionamento deles, então a tendência de eles imporem o que eles pensam não me incomoda mais. Eu não preciso ficar com rancor ou com raiva... eu não preciso me defender. Eles vão aconselhar, vão apontar o que na opinião deles é o melhor caminho - e eles acreditam fazer o melhor que eles poderiam fazer pela filha deles ao agir assim-, e a constatação que para mim fica é: eu não preciso lutar, eu não preciso que eles mudem.
Isso só é possível hoje porque eu não me identifico mais com eles como eu me indentificava antes. Vários conflitos internos (culpa, raiva, medo, rancor) saíram de férias e não tem hora para voltar. Os comentários e as opiniões não me atingem mais da forma com que me atingiam antes. E isto vale tanto para um comentário "positivo", quanto para um comentário "negativo". O fato de eles concordarem comigo, não me deixa mais feliz. O fato de eles discordarem de mim, não me deixa mais triste. Pelo contrário, eu posso me dar ao luxo de deixar os comentários deles chegarem até mim sem eu precisar me encolher ou me gabar. Eu posso olhar para estes comentários com outros olhos, que não os de filha.
É claro que houve momentos durante a viagem em que eu manifestei claramente uma opinião contrária à deles. Mas a diferença é que, ao fazer isso, eu não estava brigando, eu não estava jogando minhas forças fora - mesmo que a minha mãe freqüêntemente compreendesse algumas das minhas colocações como uma afronta. O jeito dela se "defender" do meu distanciamento, era tentando me provocar com comentários do tipo "A Daniela sempre acha que sabe tudo", " a Daniela anda muito alemã", "a Daniela anda muito egoísta", "a Daniela anda muito individualista". Esse tipo de manifestação de desaprovação em relação a mim eram claramente um resultado concreto do medo de não poder mais excercer controle. Era o medo da distância. O medo de me ver andando pelas próprias pernas, sem precisar dela.
Ao tornar-me consciente disso, as provocações da minha mãe perdiam força e ficavam inócuas; tão inócuas que eu não sentia a menor necessidade de respondê-las, pois elas não me incomodavam - eu não podia levá-las a sério e eu até ficava com pena.
Meu pai já tem uma tendência natural, desde sempre, a não me tratar tanto como um produto desenvolvido por ele, e mais como um ser humano. A relação dele comigo e com a irmã sempre foi relativamente saudável do ponto de vista da identificação e do apego. Os olhos do meu pai vêem coisas que outros olhos "normais" não vêem. Se eu souber colher esses olhares, eu posso aprender a ver de outras formas.
Minha mãe é uma mulher inteligente e sensível, ela percebe muitas coisas. Por outro lado ela pode ser muito manipuladora. Se eu souber discernir quando comentários são feitos com uma intenção nobre, e quando eles são fabricados por um ego ameaçado, então eu posso aprender muito com ela.
Eu chego desta viagem sem cansaço, sem culpa, sem rancor. Eu chego com o coração cheio. Cheio de algo que eu posso chamar de paz.
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