Eu e a minha colega de trabalho tínhamos enviado um email para os alunos falando que as notas tinham sido divulgadas no painel e que eles poderiam nos procurar para obter consersarmos, caso tivessem dúvidas.
Hoje, ao chegar no instituto, dois alunos que tiraram uma nota relativamente baixa estavam conversando com a minha colega de trabalho sobre o projeto deles. Achei bacana eles nos procurarem para saber o que ficaram devendo. Me juntei à conversa; comentamos absolutamente tudo que não tinha ficado legal e falamos sobre o que eles poderiam fazer para o projeto ficar melhor da próxima vez.
No fim da conversa eu perguntei para uma das alunas quais eram os planos dela para o próximo semestre e ela disse que está inscrita no programa de estágio no exterior. Eu disse "Que bacana. Muitas vezes a gente aprende mais fora da faculdade do que dentro". Foi só eu terminar de completar a frase e a minha colega arregalou os olhos e me olhou como se eu fosse uma herege: "Nossa, não fala desse jeito, senão os alunos vão achar que não precisam mais vir para a universidade". Eu falei espontaneamente: "Olha, eu acho de verdade que a gente aprende muita coisa num escritório que a gente não aprende aqui dentro." E foi então que eu percebi que ela ficou ofendida com o meu comentário, pois de certa forma eu estava dizendo que o trabalho dela não era tão importante assim. Ela provocou: "quer dizer que os alunos não precisam mais vir pra cá, pois segundo você eles vão aprender tudo de qualquer jeito na prática". Eu respondi: "Olha, não tô dizendo que é ou uma coisa ou outra. Eu só tô dizendo que na minha opinião a prática é super importante. Às vezes eu fico decepcionada com o ambiente universitário, pois acho que muita coisa importante não é ensinada aqui". E comentei com a aluna: "Espero que você tenha a sorte de pegar um escritório legal".
Quando subimos para a sala, a minha colega falou que eu faço comentários muito radicais e que eu deveria tomar mais cuidado com o que eu falo. Eu falei que o comentário só era radical para ela porque ela sempre vê tudo preto ou branco. Trocamos mais umas duas ou três frases e foi então que eu percebi que o meu corpo estava todo duro, que nem uma pedra.
A dureza e a falta de flexibilidade que eu vejo no jeito dela pensar, falar e se movimentar parece que entrou dentro de mim e penetrou em todas as células do meu corpo. A dureza dela me incomoda tanto justamente porque eu tenho medo de ficar desse jeito. Foi muito claro hoje: a minha resistência em relação ao jeito dela ser acabou se voltando contra mim e eu me senti muito tensa e defensiva. Eu não entendo porque eu entro nesse jogo. Parece uma doença contagiosa - quando eu percebo, eu já me contagiei.
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