Ontem tive uma conversa com a S., quem admiro muito como pessoa e como profissional.
Durante a conversa, ela me fez várias perguntas: "como você se sente fazendo o seu doutorado?", "pende mais para o lado da realização ou do sofrimento?", "como é o seu dia-a-dia?", "quais são os momentos em que você sente prazer e quais são os momentos em que você sofre?", "qual é o seu objetivo com esse trabalho?", etc. Na conversa com ela eu percebi, novamente, o quanto eu estou confusa e o quanto eu me movimento num campo abstrato e fujo do concreto. O medo de deixar o campo dos sonhos, dos pensamentos, das idéias e ficar mais real é muito mais profundo do que eu tinha imaginado. O desespero que eu tinha sentido no dia anterior ao conversar com o M. durante três horas - onde ele espelhou as minhas dificuldades, as minhas ilusões e os meus condicionamentos -, deu espaço a uma profunda dor. Na presença da S. eu deixei a dor tomar o seu espaço e não fugi. A dor era tão insuportável que eu chorei. Ela também chorou. Eu pude me abrir.
Eu percebi que basicamente duas vozes antagônicas falam dentro de mim:
- uma voz é fria e autoritária: "Páre de voar, menina! Levanta e vai lá trabalhar. Pare de ser tão melodramática e chorona... isso aí é uma desculpa que você está arranjando para fugir da raia! Não seja tão covarde e vá trabalhar."
- a outra voz é calorosa e maternal: "Você não é ruim. Você é boa. A vida não é só uma luta. Feche os olhos, respire fundo, tente sentir o seu corpo. Tudo vai ficar bem."
E eu percebi que o tempo todo essas vozes ficam brigando dentro da minha cabeça, competindo entre si para ver quem vai tomar o controle sobre mim. Quando eu estou trabalhando, a voz calorosa e maternal me diz para ir descansar. E quando eu estou descansando, a voz autoritária me diz para ir trabalhar. Eu nunca estou 100% trabalhando e nem 100% descansando. Estou sempre dividida no meio, rasgada de um lado e do outro. Não há unidade. Me sinto fragmentada, dilacerada. A S. se colocou na minha frente e me pediu para eu dizer em voz alta o que cada uma das minhas vozes normalmente me falam. Eu fiz isso e as frases se multiplicaram na minha boca. São muito mais vozes do que eu imaginava.
Ela então sentou comigo em outro lugar e me pediu para fechar os olhos. Ela falou para eu imaginar um lugar que eu gosto, no qual eu me sinto bem. Eu me vi no Amtsgerichtsgarten. Ela pediu para eu descrever o que eu estava vendo. Descrevi o som do vento mexendo as folhas das árvores, o cheiro doce das rosas no ar, o cantar dos pássaros, a sensação do sol esquentando a minha pele, o verde vivo da grama, a mistura de sombra e sol desenhando-se organicanicamente no chão. Eu me senti bem. Uma sensação quente e confortante foi se espalhando pelo meu corpo e se concentrou na altura do meu peito. Era como se eu sentisse uma plenitude lá dentro. Não faltava nada. Não tinha nada em excessso. Senti minha respiração. A sensação de prazer era tão grande que era como se eu tivesse feito esporte ou tocado uma hora de violino.
E então ela me perguntou o que esse lugar me dizia. Eu não entendi bem o que ela quis dizer com isso... ela insistiu: "tente ouvir o que o lugar te diz". E eu não entendi. Ela perguntou: "onde estão aquelas suas vozes?". Eu disse: "elas não estão em lugar nenhum... elas sumiram". Ela disse: "se esse lugar fosse te dar algum conselho em relação a essas vozes, o que ele te diria?". "Ele diria que as vozes não precisam brigar. Há tempo de trabalho e tempo de densanso. E as vozes não ficam falando dentro da cabeça quando se está realmente trabalhando ou descansando." Conversei mais com a S. e ela sugeriu que eu buscasse o meu ritmo natural. Ela disse: "como será que você funciona? Quanto tempo será que você pode trabalhar com concentração e quanto tempo de lazer é ideal para você? Tente encontrar o seu ritmo natural. Você não precisa trabalhar contra a sua natureza."
Não sei se isso pode me ajudar em alguma coisa... mas eu sei que a sensação de paz se prolongou dentro de mim durante algumas horas. E durante esse tempo eu não consegui entender de onde eu estou gerando tanto conflito. Essa sensação me deu a impressão de ter a capacidade de encontrar em mim mesma uma maneira de separar com mais clareza os momentos de trabalho dos momentos de lazer e com isso viver cada momento estando mais presente. Falei no telefone com o M. sobre isso. Nós discutimos. Ele achou um absurdo eu ouvir o que essas vozes estão falando dentro da minha cabeça e tentar fazer pactos com elas.
De toda essa história, eu só tenho certeza de uma coisa: na conversa com a S., eu me entreguei mais ao momento do que eu estou acostumada a fazer. Eu me abri. Eu me entreguei.
E a plenitude que eu senti preenchendo o meu vazio parece ter sido conseqüência do meu ato de entrega e aceitação.
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