Esses dias eu fiquei hospedado na casa do F. Eu já tive histórias com ele em outros carnavais e o último contato que tivemos foi incômodo para os dois lados, pois não houve acordo: ele queria desesperadamente e eu não queria de jeito nenhum. Eu, do meu lado, queria vê-lo longe: estava me sentindo sufocada com a marcação cerrada. Ele, depois de tanto tentar e nada conseguir, se sentiu desprezado. Ficamos alguns bons meses sem nos falar, pois ambos precisavam se recuperar da ressaca da situação incoveniente. Há um mês trocamos alguns emails inofensivos do tipo "e aí? como estão as coisas?". E ele me convidou para me hospedar na casa dele na ocasião dessa viagem para B. No início eu fiquei meio desconfiada e achei que não era uma boa idéia, mas depois eu relaxei e pensei "Porque não?".
No primeiro dia a atmosfera era de harmonia. Passeamos, conversamos, saímos para comer num lugar legal, encontramos uma amiga dele a noite num bar. Bons amigos. Eu estava me sentindo à vontade e fiquei aliviada de não ter restado nada do clima de tensão da última vez. Na hora de dormir ele arrumou o colchão para ele no chão e me ofereceu a cama. Como essa noite estava frio e ele só tinha dois cobertores finos de casal, decidimos que seria melhor dividirmos a cama e as cobertas. Dormimos na mesma cama como bons amigos.
No dia seguinte meus pais chegaram. Eu não pude deixar de notar o quanto a relação do F. com meus pais é harmônica. Essa relação já existia antes de eu conhecê-lo. Em algumas momentos eu saía para fotografar e desenhar e eles ficavam juntos conversando. Eles realmente se divertiam e era gostoso ver que eles sentiam prazer de um estar na companhia do outro. Para mim também era agradável tomar parte nesse clima de harmonia. Por alguns momentos fiquei observando aquilo e uma voz vinha na minha cabeça comparando: uma situação assim nunca aconteceu quando estávamos meus pais e o M. no mesmo ambiente. Isso se deve a uma série de fatores, mas basicamente é porque meus pais viam no M. alguém com quem eles precisavam competir, enquanto no F. eles vêem alguém com quem eles tem o prazer de colaborar. Em alguns momentos eu comentava com a minha mãe: "larga de ser tão puxa-saco", e ela sorria e falava "imagina filha, não estou puxando o saco. Eu gosto do F., não posso gostar dele?". A intimidade com que meus pais tratavam o F. era a mesma com a qual eles me tratavam. O F. era "parte da família". Em alguns momentos eu olhava isso com certo estranhamento: era como se eu e o F. fôssemos casados há muitos anos e freqüentássemos a casa dos meus pais "todos os domingos".
Na maioria das conversas, meu pai e o F. defendiam a mesma idéia. Formava-se uma polaridade: eu, de um lado, a arquiteta. Eles, do outro lado, os engenheiros. Minha mãe ficava neutra no começo, e com o tempo ela pendia para o lado deles e eu ficava sozinha representando a minha opinião. Era interessante perceber que isso não me incomodava, embora em algumas discussões eu tenha me exaltado para fazer valer o meu ponto de vista.
Durante os passeios e nas mesas dos restaurantes, o F. fazia brincadeiras comigo, me provocando. Eu, topando a brincadeira, provocava de volta. Passávamos o dia todo "competindo": quem falava a coisa mais ousada, quem sabia mais, quem deixava o outro mais sem resposta. Consciente do jogo, eu me divertia, pois várias vezes "ganhava", deixando-o sem ter o que responder. Quando eu "ganhava", todos ríamos. Quando ele "ganhava", também. A atmosfera era de leveza e movimento. Olhando agora com mais clareza: as brincadeiras com o F. eram um jeito "intelectual" de nós fazermos sexo... eram a manifestação verbal do que não estava acontecendo na realidade.
Todas as noites, quando íamos dormir, eu sinalizava que não ia acontecer nada. Eu sabia que ele queria, mas eu não estava a fim. Até o momento em que numa situação durante o dia, quando ele conversava com meus pais, sem que ele percebesse eu comecei a observá-lo. Eu o olhei e o achei bonito, atraente, masculino e viril. Estávamos na mesa do restaurante e eu comecei a fantasiar: eu o imaginei levantando inocentemente para ir ao banheiro, e eu indo atrás, puxando-o para dentro do banheiro das mulheres para oferecer o que ele tanto estava querendo esses dias todos.
A partir desse momento eu percebi todas as vezes em que ele olhava para o decote da minha blusa e flagrei ele olhando para mim várias vezes, enquanto eu conversava com meus pais. Eu percebi também que toda a chance que ele tinha de encostar em mim, ele o fazia.
Na última noite, fomos dormir tarde. Foi trabalhoso empacotar os quilos de feijão, farofa, carne seca e a garrafa de pinga que minha mãe tinha enviado do B. - tive que fazer e refazer a mala várias vezes para conseguir fechá-la. Ao deitar na cama depois de um banho quente, exausta, eu estava dizendo as últimas palavras de boa noite quando o F. me assaltou com um beijo de tirar o fôlego. Não consegui pensar, a única coisa que eu consegui fazer foi beijá-lo de volta. Meu corpo estava aberto. Eu estava toda molhada. Eu estava tão à vontade, que não pensava em nada, só curti o contato corporal. Ele estava tão ansioso, que teve dificuldade de ereção. Sem jeito ele disse "Dani, eu queria tanto, tanto... eu esperei tanto para isso acontecer... mas não vai rolar... eu fico muito ansioso com você". Eu disse para ele relaxar... ele não tinha que se preocupar nem justificar nada... estava gostoso a gente ficar junto, não precisávamos transar. Curtimos a noite sem penetração.
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