Sonho 01.07.2008 (post copiado do meu caderno):
Estou num trem. Nesse trem há pessoas da minha família e amigos. De repente o trem freia bruscamente e há uma confusão. Eu olho pela janela e vejo pessoas sofrendo lá fora. Há uma espécie de guerra civil. Eu fico com muito medo. Algumas pessoas descem do trem para ver a confusão. O trem é então "apedrejado" com bolas de lama. As janelas ficam turvas. Meu medo aumenta. Fico sabendo que vamos atravessar uma determinada cidade de noite e que temos que ficar em nossas camas, imóveis, porque pessoas armadas vão entrar para procurar alguma coisa e se alguém estiver acordado, eles atiram. Ou seja, somos obrigados a fingir que estamos dormindo para não morrer. Eu fico muito nervosa, porque eu sei que a chance de atirarem em nós é grande, mesmo que estejamos "dormindo". Me sinto atrapada, numa situação em que não tenho nenhuma saída. Qualquer coisa que eu fizer, estou arriscando a minha vida. Sinto um medo terrível.
Esse sonho é claro para mim: tem a ver com a minha atitude perante o E. , que esteve aqui em F. me visitando esse fim de semana. Hoje acordei com dois herpes na boca, o que não acontece há muito tempo. O sonho e o herpes estão interligados. As duas coisas expressam, de maneiras diversas, o mesmo sentimento tenso: o resultante da minha frustração de não saber delimitar o meu espaço. Essa é a origem de todos os meus herpes: não ter coragem de reinvindicar o espaço que eu preciso para ser eu mesma.
Esse fim-de-semana com o E. foi muito intenso em vários sentidos. Eu me senti querida e paparicada. Eu doei o meu carinho e atenção. Namoramos bastante. Foi bom andar pelas ruas de mãos dadas, sem me preocupar com conceitos. O sexo foi íntimo, intenso, novo. Tem algo no sexo com o Emil que eu nunca tinha sentido antes. Me senti muito próxima dele.
Mas chegou num ponto em que o espaço para mim ficou apertado. Eu não tenho certeza se isso aconteceu depois que encontramos o M. na feira (o que deixou o E. de certa forma inseguro e fez com que ele quisesse se aproximar ainda mais para afastar o medo), ou se foi porque eu simplesmente não tenho necessidade de ficar abraçando e beijando a pessoa que eu gosto o tempo todo.
O ápice do momento em que me senti presa foi quando cheguei de um concerto e ele já estava deitado. Eu o beijei de leve para não acordá-lo e me deitei silenciosamente do lado dele. Queria dormir, estava cansada. Ele se aproximou e me abraçou. Eu sinalizei que estava com sono. E ele continuou tentando se aproximar, como quem quisesse "aproveitar a ultima noite". Acho que ficamos nessa de "gato e rato" durante uns 30 minutos (ele me acariciando, eu fugindo), até o momento em que eu fui forçada a falar que estava muito cansada e que estava muito calor, precisava de mais espaço para conseguir dormir. Ele se afastou bruscamente, decepcionado com a minha reação. Felizmente eu estava muito cansada para ser a "boazinha". Apenas me senti aliviada e dormi.
No dia seguinte, ele falou que tinha dormido mal. Eu disse que também não estava conseguindo dormir, até o momento em que ele parou de me cutucar - falei isso num tom de brincadeira, mas de fato, queria dizer isso de verdade. Ele disse: "nossa baixinha, tô te enchendo o saco, né?". E eu respondi: "claro que não". Mas na verdade, de fato, muitas vezes eu gostaria que ele tivesse sido mais cauteloso e tivesse percebido que eu precisava de mais espaço. (Sinto nesse ponto que repito um padrão da minha mãe, que quer que meu pai adivinhe as coisas que ela está pensando... ao invés de se posicionar, ela fica com raiva porque meu pai não percebe os desejos dela). Como fiquei com medo de machucá-lo, eu adiei ao máximo o momento de dizer que precisava de mais ar. Eu só falei, porque a situação era extrema. Isso mostra o quanto eu sou infantil.
O medo de ter que tomar responsabilidade pelo que eu sinto é tão tenebroso, que eu prefiro suprimir minhas sensações. E ao suprimir minhas sensações, eu cometo uma violência contra mim mesma. O medo de decepcionar os outros é tão grande que ele é maior do que o meu desejo real de ser eu mesma. Porque isso?? Onde foi que aprendi que preciso ser sempre a "boa menina" para as pessoas que eu amo?
Como há um abismo entre o que meu corpo sente e o que a minha cabeça diz, então o herpes estoura e tenho pesadelos nos quais eu estou entre a vida e a morte.
Me sinto tão fraca quando não tenho coragem de ser eu mesma. Me sinto tão fraca quando coloco a outra pessoa em primeiro lugar. Me sinto miserável.
Me parece que o meu sistema imunológico é fraco não apenas porque geneticamente eu tenho menos leucócitos do que a maioria das pessoas, mas porque eu tenho um mecanismo que bloqueia qualquer atitude minha que me coloque em primeiro lugar.
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