quarta-feira, 9 de julho de 2008

A minha ganância e a minha falta de flexibilidade

Há umas semanas conheci um professor da FH numa viagem de trem para M. Nós nos entendemos bem e ao longo da conversa descobrimos que temos muitos temas em comum. A simpatia mútua e a curiosidade de nos conhecermos melhor fez com que nós trocássemos endereços. E ontem eu o convidei para jantar aqui em casa. Chamei o P. e o M. também, pois imaginei que não só para mim, mas para eles também, poderia ser interessante conversar com essa pessoa.

Esse senhor, desde o primeiro momento, me impressionou com a sua abertura e a sua generosidade. Ele já passou por tantas coisas... - já ganhou e já perdeu, já viveu e já morreu, já inventou e reinventou - e possui uma humildade que eu raramente encontrei em outras pessoas. Não só humildade, ao conversar com ele eu senti força, perseverança, estabilidade, alegria, flexibilidade e esperança. A sua atitude perante a vida aparece conseqüêntemente na sua forma de falar e de se movimentar: ele é generoso. Mesmo quando a vida é dura e difícil, ele é generoso: ele aceita as dificuldades, levanta-se e caminha em frente. Mesmo quando os outros são duros e inflexíveis, ele é generoso: ele não os mostra como são covardes e sórdidos, ele apenas faz o que deve fazer e segue em frente da maneira que pode. Qualquer um na presença de um homem assim, se pudesse dar-se a chance de ouvir abertamente e observar sem julgamento, ficaria grato por existir tal ser humano. O contato com esse professor, que na idade dele possui mais flexibilidade do que eu jamais tive minha vida toda, me mostra que há uma maneira mais generosa de viver. Uma maneira muito mais simples. Uma maneira muito mais natural. E é claro que eu estou falando aqui, antes de mais nada, da generosidade para consigo mesmo. Como uma pessoa poderia ser generosa com os outros, se não sabe o que é ser generoso consigo mesmo?

A questão é que essa generosidade, que me encantou tanto, não é algo que eu possa decidir ter, de uma hora para a outra. Esse desejo é mesquinho e hipócrita. Tal qualidade, que não tem nome, só tomaria espaço se eu não pensasse nela. Ela só teria chance de vir a tona, se eu deixasse de almejá-la, se eu deixasse de vê-la como um objeto de consumo.
Hoje de manhã, ao conversar com o M., eu percebi o quanto estou focalizada em resultados e ganhos. É só a voz da ganância que fica rezando dentro da minha cabeça a mesma ladainha de sempre, que eu conheço há muitos e muitos anos: quero ser mais generosa, quero ser mais feliz, quero ser mais flexível, quero ser mais criativa, quero ser mais paciente, quero ser mais amorosa, quero ser mais humana, quero ser mais forte, quero ser mais humilde.
E de tanto querer, a Daniela só existe em dois estados: ou ela é uma criança mimada que faz inúmeras auto-exigências, ou ela é um carrasco que fala o tempo todo o quanto ela é ridícula e não tem a menor chance de tornar-se um ser humano.

Viver como as formigas, trabalhando ordinariamente, dia-a-dia, sem cair nos mecanismos de auto-piedade e auto-flagelação é praticamente impossível... eu tenho medo do "frio", da impessoalidade, do nada.

É tenebroso ser apenas o que eu sou, deixando morrer as minhas projeções e imagens preferidas.

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